Foto I - O açude ao romper da manhã.
Foto II - Resultados no final da manhã.
Local: em Vale dos Mortos algures entre Serpa e S Domingos, na Herdade de Besteiros !
Este blog tem como objectivo o registo das minhas memórias e estórias de caça. Para mais tarde recordar ...

O meu amigo Tomé tinha-me arranjado uma caçada às perdizes vermelhas na Zona de Caça Associativa de Alfamar.
Esta Herdade, de cerca de 1.600 hectares, situada nos arredores de Serpa e com aproximadamente 25 sócios, caracteriza-se essencialmente por uma condição única, rara hoje em dia, e que todos os caçadores dignos desse nome procuram: caçar à perdiz selvagem.
A tipologia do terreno é algo acidentada, com alguns cabeços bastante pronunciados, muita esteva e mato e algumas belíssimas zonas de pasto e cultura de cereal. Quer isto dizer : ideal para a criação e reprodução destas belas aves.
Ali à saída de Serpa, virando à direita rumo às Minas de S Domingos, percorridos alguns Km encontra-se a “Vendinha”, café à beira da estrada secundária, por onde muito pouco transito passa, e onde havíamos combinado o encontro às 7h00 da manhã de 15 de Outubro 06.
Ainda de noite escura sentámo-nos na esplanada completamente deserta do café, um pouco à conversa, e onde haveria depois de aparecer o Luís , sócio da Reserva, que me conduziria à mesma.
Após largos Km percorridos em estrada macdam mas em bom estado, por entre montes, vales e planícies, chegámos, finalmente, à ZCA de ALFAMAR .
Recebeu-me simpaticamente o Presidente da Associação de Caçadores, Sr Mário , homem de bom humor mas, pelo que me apercebi mais tarde, grande disciplinador das regras dentro da Reserva e cujos conselhos e instruções todos seguem sem grandes discussões.
É assim, para que os projectos de caça tenham êxito, é necessário liderança e espírito de camaradagem e cooperação.
Dadas as necessárias instruções sobre o dia de caça, todos os caçadores retiraram os seus cães das viaturas e reboques, e sentámo-nos todos em veículos de caixa aberta, com as espingardas e perdigueiros presos o melhor possível no meio das pernas e lá dirigimo-nos para uma das pontas da Herdade. Segundo me apercebi, fizeram-se 3 linhas de 5 ou 6 caçadores.
O tempo, o ideal para este tipo de caça: Solarengo e com uma ligeira brisa.
O terreno, nesta zona, era deveras acidentado e para baptismo no esforço inicial de andar as primeiras centenas de metros, confesso que foi algo violento, face aos autênticos barrancos que defrontámos nessa primeira meia hora, quarenta e cinco minutos de caça.
Entretanto, as primeiras perdizes levantavam largas e desapareciam no horizonte à frente das linhas sem possibilidade de tiro.
Na minha linha, a do meio, alguns minutos mais tarde, comecei a ouvir os primeiros tiros da linha de enrola da direita.
A partir daqui, confesso meus amigos, que foi um autêntico festival de tiros, gritos, cobros e emoções fortes. As perdizes, autenticas “miuras” de raça autóctone , foram forçadas a regressar para trás das linhas, para os seus terrenos habituais, de onde tinham fugido.
Para isso, tiveram, como referi, de cruzar as linhas por cima. Umas apareciam a 30, 40 metros de altura permitindo autênticos tiros de batida ou “ojeo” como dizem os nossos amigos espanhóis. Assemelhavam-se a autenticas setas de asas abertas planando e esvoaçando, tentando ganhar velocidade e passarem por nós incólumes e ilesas.
Outras, não muitas, tresloucadas com os tiros, resolviam acomodar-se e ocultar-se nos pastos, lavrados e matos.
Estas eram levantadas ou paradas pelos cães perdigueiros.
A pouco e pouco os cinturões dos caçadores iam-se compondo, com perdizes e algumas lebres levantadas.
Registo, pela beleza dos lances, 2 casos. Uma perdiz, fugida das linhas de enrola, passando por cima de mim, muito alta e a uma velocidade estonteante, mereceu tiro certeiro da minha Beneli , indo cair a cerca de 90 – 100 metros atrás , qual autentica bola de penas. Hão-de passar alguns anos até esquecer este tiro.
Outro caso, uma perdiz amagada e, por isso, aterrorizada, que me saltou numa lavrada, aos pés, da esquerda para a direita, voando veloz a meia altura e aos cacarejos no meio de algumas oliveiras. Desferido o tiro, quase de chofre, penso que um bago terá atingido a cabeça da ave que, de repente, começou a voar na vertical , voou, voou, até ter morrido lá no alto e caído a pique, causando um enorme estrondo no chão.
O pachola meu perdigueiro de raça pointer deste ano, que a tudo ia assistindo, arranca, veloz, à queda da ave e cobra-a orguhosamente na boca, depositando-a a meus pés.
Finalmente, a cena do dia: percorria uma linha de água completamente seca, mas com algum juncal baixo mesmo no centro da ribeira. Duas lebres dormiam, uma atrás da outra. Arranca a da frente e, logo de seguida a de trás. Devo referir que levantaram ambas a uns 3, 4 metros de mim. Apontada a Beneli, desfiro um, dois, três tiros, e fico a olhar para as lebres que fugiram a sete patas. Só tive vontade de atirar a espingarda contra um sobreiro. Hoje recordo a cena mais humorado. Afinal, ficaram ambas lá nos terrenos para dar mais oportunidades de caça a outros.
No final o tableau de chasse: 58 perdizes ( metade fêmeas e metade machos – sim, porque os sócios desta ZCA fazem esta estatística ) e 8 ou 9 lebres abatidas.
A meio da manhã fez-se um taco no campo. Em cima da caixa aberta duma carrinha abriram-se, pães alentejanos, uns presuntos, uns paios e chouriços, queijos e umas cervejolas fresquinhas. À conversa e recompondo os estômagos já famintos, recuperaram-se forças para cumprir a 2ª parte da jornada.
Da minha parte, cobrei 6 perdizes e uma lebre.
Fiquei cheio de saudades de lá voltar o que acontecerá – ainda bem – no início de Novembro.
Parabéns a todos pelos magníficos terrenos de caça que têm.





Saudações cinegéticas.



Tinha sido sorteado com uma caçada às perdizes numa Zona de Caça Municipal na região de Reguengos.
A acompanhar-me, no sorteio, esteve também o meu cunhado Manel.
Alguns telefonemas prévios para o responsável da zona de caça davam-me a entender que se tratava de uma boa herdade para a caça geral !
Foi, por isso, com muita expectativa, que na madrugada deste dia arrumámos as armas na carrinha , atrelámos o reboque com os perdigueiros e rumámos direitos a Reguengos de Monsaraz, para a Vendinha.
Às 7h da manhã , com muito frio, estacionámos na praça central da Vendinha e aguardámos a chegada dos restantes caçadores.
A Organização, liderada pelo Sr António Janeiro, esteve irrepreensível em todos os aspectos. Não só no Sorteio das linhas, mas também e sobretudo na mensagem de rigor e disciplina que deixaram aos caçadores que iriam caçar nesse dia.
Como tinha chovido muito na véspera, o Sr António Janeiro recomendou que fôssemos com ele no 4x4 e deu-nos boleia para a Herdade. Pelo caminho um Jeep mais incauto atascou-se em profundos socalcos de lama que marcavam o trajecto tendo de ser rebocado, atrasando um pouco o início da caçada.
Chegados ao local e dirigidas as últimas palavras e recomendações aos caçadores, foi feito o sorteio pelo método do cartucho, ficando, no entanto, as pontas da Linha destinadas a caçadores locais da organização já que os restantes não conheciam os terrenos onde se iria caçar.
O dia esteve muito bom. Frio e muito Sol são, quanto a mim, os melhores ingredientes para caçar à perdiz e à lebre.
A Herdade, toda ela é composta por longas planícies de pastos e algumas linhas de água e por uma parte significativa de montado e vinha, de relevo mais acentuado.
Logo de início 1 ou 2 lebres deixaram a “malta” com água na boca fugindo ao longe no meio dos pastos, sem deixar a mínima hipótese.
O meu cunhado Manuel depois de atravessar uma ribeira ( linha de água ) e subindo um cabeço com o sol pela frente, tropeçou com uma lebre que, descoberta, arrancou rápido para trás, direita à ribeira. Beneli ao ombro e, ao segundo disparo, vejo a lebre dar uma cambalhota tocada de morte. O Bugy, o seu perdigueiro português, já velhinho, abocanhou e rapidamente levou ao dono. Pendurado o animal, retomou a caçada.
Da minha parte já ia a pensar estar em dia não. Pelas 9h30 ainda nada tinha visto e a minha pointer também nada “tirava” daqueles pastos.
Cerca de 1 Km mais à frente aguardámos um pouco pelo enrolar da Linha pelo lado esquerdo.
Atravessámos uma cerca e, logo, dentro de pastos bem altos, a Gabi , com a brisa bem de frente, estaca em linda paragem. À medida que chego mais perto, a cadela apercebe-se e inicia a guia – aproximação, àquilo que eu pensava serem codornizes. Barriga quase a roçar o chão , a pointer avança cerca de 30-40 metros e aí pára definitivamente em espectacular atitude de felino.
Sentindo-se descoberta, arranca velozmente uma perdiz , a qual encaro calmamente com a Bereta , jogando-lhe 2 tiros. Ao segundo a perdiz leva chumbo e segue de asa aberta para poisar lá bem ao longe, tive mesmo alguma dificuldade em ver onde havia pousado.
A vontade era ir de imediato no seu encalço. No entanto, fazendo-o, iria colocar-me à frente da linha de caçadores pelo que decidi esperar pelo enrolar da linha. Estes 5/6 minutos de espera enervante, fizeram-me perder a perdiz já que, quando cheguei ao local onde ela pousou , nunca mais a vi , nem eu nem a Gabi ( nem sinal dela deu ).
Pelo caminho, os restantes confrades iam mais ou menos fazendo o gosto ao dedo, sobretudo com as lebres e as codornizes que havia em abundância.
No regresso atacámos o montado. O Manel , pela minha direita, arranca-me com um bando de 10 a 12 perdizes que me passam pela frente e de través, para o meu lado esquerdo, a uns 20 metros para lá de uma cerca . Dois tiros e , do bando, vejo uma a enrolar no ar e cair como um fardo no chão. A pointer, já muito matreira nestes lances, atravessa o aramado e vai cobrar a perdiz. Tratava-se de um macho com esporões.
Logo de seguida, da ponta esquerda da linha oiço 2 tiros. Vejo uma lebre a correr desalmadamente direito a mim, pelo meio dos juncos de uma ribeira, com as orelhas bem pregadas ao lombo. Corro direito à ribeira e páro. Sabia que ela iria passar por ali. Não tinha outro caminho.
Mas não passou. Que raio ? Dou mais meia dúzia de passos e digo à pointer para buscar: Busca Gabi !
Mais um ou dois minutos. Nada. De repente vejo a cadela marrada junto a um tufo de juncos. O coração parece que me quer saltar do peito. Que emoção.
Aí vai ela ! Arranca forte e depois de correr 15 a 20 metros prego-a no chão com chumbo 7.
A cadela faz o cobro e vejo que se trata de um lindo animal. Era daquelas lebres , uma fêmea, que têm o pelo com um castanho um pouco mais escuro ou mesmo ruivo.
Penduro-a com emoção e rapidamente junto-me à linha.
Mais uma vez vejo a pointer a dar-me sinal de perdizes. Esquartejava rapidamente um cabeço, com a cauda a abanar muito rápido e isso eu sabia que era sinal muito fresco de perdizes.
Nem mais. A cerca de 25/30 metros vejo nascer uma perdiz do chão, arrancando atravessada , com aquele cacarejar típico que me deixa sempre com o coração na boca. Encaro a escopeta e logo ao primeiro disparo derrubo-a no ar caindo bem redonda.
Gabi , dá ! Nem preciso de lhe dizer. É rara já a perdiz que salta, seja de onde for, que este animal não se aperceba dela. Alguns segundos mais tarde, regressa orgulhosa com a perdiz na boca.
No caminho de regresso mais tiros se ouvem e as perdizes e as lebres lá vão caindo, à mistura com algumas codornizes que, embora já com a época avançada, existem ali com muita abundancia.
Cerca das 13 horas chegávamos aos carros depois de termos percorrido seguramente alguns 10 Kms. As Herdades desta ZC são pouco acidentadas, pelo que, caçando em linha, fazem-se muitos kilómetros.
Apurado o saldo da caçada e feita a distribuição, que a todos agradou já que quase todos os confrades levaram caça nos limites máximos, regressámos á Vendinha.
Pelo caminho atravessámos o “livre” onde diversos caçadores calcorreavam os terrenos para a frente e para trás ( quantas vezes por dia ? ) sem grande proveito já que estes terrenos estão, como toda a gente sabe ( sobretudo nesta altura da época ) completamente esvaziados de caça.
Despedimo-nos com amizade do Sr António Janeiro. Será que em 2005 regressamos ? Vamos ver, a esperança morre em último lugar.

